A CULTURA EM FÉRIAS
O Sexo dos Anjos
Por
Joana Carrelha, 11º Ano
Anjos. De onde apareceu o seu genial conceito? A sua forma, o seu inigualável par de asas alvas, fofas. As suas maravilhosas faces rosadas, os seus corpos perfeitamente simétricos. Desde os magníficos arcanjos aos mais afáveis querubins... Quem primeiro ousou pintá-los? De quem foi a primeira corajosa tentativa de captar a sua essência de luz e névoa? O que levou
William Adolphe Bouguereau a pintar tal quantidade de formas distintamente divinas, sem qualquer elemento concreto, palpável em que se basear?
Estas eram algumas das muitas questões pertinentes que fascinavam a jovem mente de Gabriel, sucessor do famoso arcanjo da Bíblia Sagrada, assim dizia a sua querida avó Lena, que na sua ingénua beatice tinha impingido de modo algo subtil esta curiosidade quase fanática no seu único neto.
Viu pela primeira vez um quadro de Bouguereau aos treze anos, idade tenra, fértil, susceptível à extraordinária beleza e atracção exercida pela pintura. Tinha o nome de "Cupidon". Aqueles olhos chamavam-no, apesar de ser apenas uma cópia fingida em papel barato, um daqueles quadros famosos para se pendurar na sala de estar ou no quartinho de visitas. Queria envolver-se naquele abraço de pureza, naquele toque doce, naquele embalar melancólico e perfeito. Desejava ardentemente tocar aqueles caracóis castanhos, rasar a palma da mão naquela pele macia, sentir sob os dedos humanos a textura divina das penas daquele anjo. Ou seria daquela anjo? Não sabia se era apenas por ser rapaz, mas a sua atracção pelo retrato considerava-o inegavelmente feminino. Todas as formas daquele corpo angelical, abraçado a si mesmo, constituíam para a sua mente uma jovem figura feminina, com um pequeno par de asas estendendo-se até às coxas.
Mas... Uma anjo? Sempre ouvira dizer que os anjos não possuíam caracteres de distinção entre os sexos, como o ser humano, que pura e simplesmente não tinham sexo: eram assexuados ( como dizia no seu dicionário da escola ).
Desde aquele primeiro encontro com aquela revelação divina na montra de uma loja de decoração que a sua fixação por anjos aumentou. Com muito útil auxílio da Internet, utensílio diário para a realização das suas coloridas e variadas ambições, descobriu outra grande quantidade de pinturas retratando anjos. Entre algumas outras obras de Bouguereau encontrou também pintores italianos e espanhóis, mas parecia haver uma certa consistência nas pinturas que o desconcertava. Afinal parecia óbvia a distinção sexual entre as diferentes imagens dos anjos. Uns eram claramente masculinos, enquanto que outros femininos. Mas afinal em que é que repousava o consenso final? Na ausência da sexualidade dos enviados divinos ou a sua semelhança à Humanidade com que se relacionavam directamente?
Procurou a sábia avó Lena por respostas nesta questão semi-relacionada com a religião em que acreditava e da qual dependia todos os dias da sua vida pacata. " Meu filho", começou calmamente na sua voz rouca mas doce, "Conheces a expressão: discutir o sexo dos anjos? É uma discussão sem fim, sem finalidade alguma. Na verdade podemos especular tudo o que quisermos, porque nunca havemos de saber. Poucos são os contemplados com a visão de um destes seres divinos. Ainda mais escassos são os que o fazem enquanto vivos e de pés bem assentes nesta terra. A única maneira de saber a verdade seria perguntar-lhes directamente." "Às pessoas que os viram?", perguntou Gabriel na sua vozinha infantil, ainda longe do seu tom de homem assumido. Os lábios da avó comportaram um sorriso complacente "Aos anjos, meu amor. Aos anjos!", respondeu.
Ao fim e ao cabo era uma boa ideia. Quem mais poderia saber a verdade, se não eles? Decidiu-se em poucos segundos, era altura de se pôr em acção, afinal de contas conhecia um anjo, passava por ele ( ou ela ) todos os dias desde que o vira pela primeira vez, há mais ou menos um ano atrás. A pintura plagiada de "Cupidon", na montra da velha loja de decoração. Entrou algo hesitante, inseguro dos seus passos pequenos, mas rapidamente se tornou mais confiante do seu porte. Sentia-se como um cientista, um descobridor numa intrépida aventura reveladora de novos horizontes de conhecimento: ele seria o primeiro a saber a absoluta verdade sobre os anjos. Ele seria um perito apenas aos catorze anos de idade. Um arrepio frio percorreu-lhe a espinha, fazendo-lhe estremecer os ombros. Só esperava que acreditassem nele.
Chegou-se perto do retrato devagar, com pezinhos de lã. A loja aparentava-se vazia e de certo não desejava chamar a atenção de ninguém àquele sem inocente "empreendimento" iluminador. Pegou no quadro com cuidado, em silêncio solene. Parecia-lhe um gesto atrevido de mais, mesmo sendo apenas uma cópia sem qualquer valor real. Por momentos observou todos os aspectos, os mais ínfimos pormenores contidos naquela excelente captação de algo incapturável. Ponderou sobre o que tinha agora entre mãos. Na sua mente algo virgem não imaginava representação divina mais plausível.
Levou aquele tesouro para um canto mais escondido, longe dos olhares de quem passava pela montra espelhada com a ténue luz do sol de fim de tarde. Fixou aquele olhar penetrante mais uma vez, era deveras sensacional.
Pensou na maneira mais suave e respeitosa de formular a questão que pairava à sua volta como uma aura de dúvida. Passou alguns segundos em contemplação até que a certeza se instalou no seu olhar cinzento, naqueles olhos curiosos, inquisidores. Sussurrou ao ouvido do retrato, esforçando-se por ser cortês, meigo até. "Peço desculpa pelo incómodo... Tenho passado por esta montra todos os dias durante um ano inteiro e à bastante tempo que me interrogo, com todo o respeito é claro!.... Gostaria de saber se vossa Divindade é menino ou menina?". Fechou os olhos com receio do que poderia acontecer naquele instante. Mas foi apenas mergulhado num silêncio mais profundo que o que precedera a sua pergunta. Desapontado, deixou descair a pintura pelas mãos abaixo, até à cintura. Não acontecera nada. Absolutamente nada de nada. Afinal do que estava à espera? Era apenas uma cópia barata! Nem devia fazer jus à verdadeira obra de Bouguereau, pensou enraivecido.
Avançou bruscamente para a montra de onde retirara o "Cupidon" falso, mas algo o fez parar a meio caminho até lá. "Gabriel, Gabriel?". Uma voz trazida pelo vento pela porta dentro? Não, estava bem fechada. Talvez por uma fresta numa janela, algures num canto da loja? "Gabriel, Gabriel? Sou eu: Cupidon". Um sobressalto percorreu o seu corpo. Elevou o quadro à altura dos olhos e surpreendeu-se como etérea luz branca que dele provinha. "Sou eu: Cupidon", ouviu aquela voz leve, repleta de poder e magia repetir. "Terei muito gosto de responder à tua pertinente pergunta. O reconhecimento do teu coração puro permite-me fazê-lo sem reservas. Espero que a verdade não te assuste". "Nunca", afirmou Gabriel firmemente, os seus olhos cinzentos faiscantes de fascínio perante aquela imagem espantosa. "Mas há algo que tens de me prometer, Gabriel. Algo deveras importante". "Qualquer coisa", disse sem qualquer ponta de hesitação. Finalmente saberia a verdade. "Tens de prometer não contar a ninguém este nosso segredo. O mundo ainda não se encontra preparado para o saber", explicou Cupidon num tom algo triste. "Mas eu estou? Eu estou preparado?", perguntou Gabriel ansioso. "Estás sim, querido amor-perfeito. Estás sim", respondeu com um sorriso mais doce que qualquer delícia açucarada à face do planeta Terra. "Então diz-me. Conta-me a verdade e prometo não dizê-la a ninguém. Mas preciso de saber! Por favor", implorou. A sua expressão era séria, solene. A determinação destemida transparecia por todos os seus poros. Estava, de facto, preparado. " Pois bem..." decidiu Cupidon "Chega-te mais perto! ".
Joana Carrelha
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