O PODER DOS SÍMBOLOS
« A CAMISOLA DA SELECÇÃO PORTUGUESA »
Não há nada a fazer. Por muito tempo, o Homem continuará a reger-se por noções de proximidade e excelência. Foi a dimensão da tragédia causada pelo
tsunami que fez as manchetes mundiais no primeiro dia do choque. Depois cada povo, por mais cosmopolita e aberto, foi direccionando as notícias da sua dor, alegria ou solidariedade, para o que lhe era próximo.
Os Suecos, por exemplo, fixaram-se nos seus milhares de desaparecidos; nós, nos nossos oito, e nas histórias miraculosas dos sobreviventes. Nunca ninguém esqueceu os mais de 150 mil mortos, mas até a dor mais profunda precisa ainda de ter rostos. Próximos.
E quando o terrível
tsunami estava já a definhar nas páginas interiores de todos os jornais, surge numa praia indonésia um menino de sete anos que vagueava há 19 dias com uma
camisola da selecção portuguesa no corpo cada vez mais franzino.
Martunis podia ser apenas mais um sobrevivente daquele inferno de água. Teria ainda assim um espaço de ternura no coração do Mundo. Mas, por cá, aquela camisola de Portugal fez a diferença. É ver a nação de lágrima ao canto do olho, de novo sem defesas para a emoção, projectada em cada gole de água que ele bebeu, cada colherada de alimento - não lhe fará mal depois de tanto jejum? - no choro provocado pelo soro.
O que uma camisola faz a sete fusos horários !
P. S. De CORREIO DA MANHÃ, 17 - 01 - 2005
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